Dissera que estava no céu. Que o mundo finalmente lhe sorria, as vozes soavam leves como cantadas por João Gilberto. Seu coração enfim batia de verdade, não era mais aquela velha bomba instável e fraca. As cores haviam se tornado mais intensas, os traços mais definidos, as pessoas mais tolerantes e simpáticas. Todos deixaram de ser monstros, e se tornaram enfim humanos. Mas a decepção....ah, a decepção... não esqueceria jamais a possibilidade de se decepcionar. Uma felicidade assim tão intensa e constante.... não estaria algo errado? E mesmo que não estivesse, até quando, meu deus, perduraria toda essa sensação de plenitude? Não se sabe ao certo, mas receio que tenha nascido no exato momento do nascimento da plena felicidade. Temer perder o que se tem é comum, afinal "quanto mais alto, maior o tombo". Simples motivo de felicidade era ver seu gato se banhar ao sol na janela de sua sala. Os pequenos olhos fechados, respiração profunda para absorver o que o mundo exterior poderia lhe proporcionar, o conforto de sentir o calor lhe dar vida. Mas era o décimo segundo andar. A idéia de ver seu gato escorregando passou a inundar seu imaginário e aquilo lhe torturava cada vez mais intensamente. Já não enxergava um banho de sol, e sim uma vacilada que o levaria a morte. Felicidade....linha tênue a separando de uma decepção latente, que espera o momento certo para enfim estragar tudo. Não. Não aguentava mais toda essa plenitude e paz. Não suportava a idéia de um mundo a um passo de desabar. Foi com um simples empurrar e um leve miado que seu gato se foi, janela abaixo, de encontro ao chão. Respirou aliviada. Não mais se decepcionaria.
Por Gustavo Souto de Paula

Decepção não mata, nem ensina a viver, mas inspira a escrever!
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