Foi então que decidi virar a cama para a janela. Bem de frente, vista para o céu. Deitado, observando as nuvens se movimentarem lá em cima, pensando. Mas angustiado, não relaxado. O que torna o céu angustiante? O vento entrando calmamente desolador? A leve vida lá fora opressora? Justamente o “lá fora”.
Janelas podem ser cruéis. Vislumbra-se todo um universo, se vê todo um mundo que acontece, mas você está ali do outro lado, como que mendigando um pouco daquilo tudo. O que lhe resta são sons, cheiros, vistas para possíveis fotografias, sensações para um possível sonho.
Do lado de lá estão todas as possibilidades. Todas os caminhos a serem tomados, todas as escolhas a serem feitas, todo o sangue a se escorrer, todo sangue a se beber.
Janela do meu quarto, do meu mundo, sei bem que não posso simplesmente pular através. E ainda, me falta a coragem para me entregar ao mundo que me oferece. Resta então o eterno lamento dos oprimidos e covardes, atenuado porém pelas migalhas da promessa de uma vida plena que chegam com aquela folha que entra em meu quarto, trazida por um vento de fim de tarde.
Por Gustavo Souto de Paula

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